
Diário de livreiro |
| (fragmentos) |
Gente estranha |
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Livreiros são gente muito estranha. Talvez por viverem entre livros imaginação não falta a eles, nem muito menos vontade de realizar os sonhos. No entanto, de todos, o que mais surpreendeu com seu ideal foi o catalão Josep Maria Bocabella i Verdaguer. O livreiro, um fervoroso católico, que em 1866 criou a Asociación Espiritual de Devotos de San José, entidade para difundir o catolicismo, lançou, em 1882, a pedra fundamental de uma igreja, no terreno de 12.800 m² entre as ruas Mallorca, Provenza, Marina e Cerdeña, em Barcelona, que Verdaguer comprou por 172 mil pesetas (1.034 euros atualmente). Um ano depois, o livreiro acreditou nos planos de um jovem arquiteto e os dois se apaixonaram por uma construção que nunca veriam completada. O templo a que se dedicaram passaria anônimo na história se não fosse a igreja da Sagrada Família, a maior obra de António Gaudí, aquele jovem arquiteto em que Verdaguer acreditou. Os dois estão enterrados na cripta. Na capela de Santo Cristo, está o corpo do livreiro e, na da Virgem do Carmo, a de Gaudí. |
Ameaça |
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Foram-se há muito os anos de tacão de ferro e a mãe procura para o filho o livro “Manifesto comunista”, de Karl Marx e Friedrich Engels. Pega o volume e reserva, enquanto fica vasculhando as prateleiras. Mas não se contém. Pede aflita uma orientação ao livreiro: - Será que esse livro não faz mal aos jovens? |
Grito para o sobradão |
| Livreiro recém-instalado num velho sobrado do Centro carioca ainda aprecia a arrumação das estantes, quando ouve um grito na estreita e movimentada rua: - Ô da livraria! Quando atende da sacada, uma senhora pede: - O senhor pode ver se tem aí um livro para mim? Eu não vou subir essa escadaria. |
Marcador da esperança |
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Era o ano tempestuoso de 1968 e a viação rodoviária pagava 6 mil cruzeiros novos por morte em acidente.O leitor se refugiava no dicionário. O bilhete da viagem marca sua parada na letra E. O povo também esperava para embarcar na esperança. |
Barriga cheia |
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Livraria tem que ser como barriga de vira-lata: estar sempre cheia (Recolhido de um velho livreiro) |
Limpeza seleciona amigos |
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Limpar estantes é se desfazer de velhas preferências. Aquele autor que tanto encantou na juventude já não tem o mesmo sabor com o passar dos anos. Livro, como o vinho, precisa da decantação das estantes. O tempo deixa marcas no leitor que nem todo livro encantado de ontem pode agradar hoje. A estante fica mais limpa com o tempo. Mais vazia, menos pesada. No entanto, mais arejada e mais selecionada, encanta o leitor que passa a conviver com os verdadeiros amigos que escolheu para todo o resto da vida. |
O manual do bom profissional(O texto acima foi retirado da reportagem “El pequeno librero no ha muerto”, de Ignácio F. Zabala, na revista espanhola DEVA-comunicação financeira, em sua edição de 19 de setembro de 2007) |
Lição do livro |
| O livreiro, em seleção de livros, separa um deles para o “depósito”. Para que ocupar a prateleira com aquela autora tão pouco conhecida, fora das badalações críticas? O espaço com os tais “esquecidos” serve para se colocar os “vendáveis”. Ficou um dia encostado. Na manhã seguinte, surgiu leitor procurando tudo o que aquela autora publicou. E o livreiro se lamentou de ter dela apenas um título. Mas aprendeu que livro, qual seja sua importância, tem sempre um leitor à procura. |
Diário de livreiro |
| (fragmentos) |
“Emprestar é um prazer; devolver é um dever”. (Frase encontrada em um livro mostra um leitor muito compenetrado de seus deveres, num país em que raros respeitam os bens, alheios e públicos, ainda mais se tratando de livros) O livro que se compra hoje pode ser um marco. A leitora, em Diário de Wanda (Retour, 1983), de Wanda Pazybylska, registrou o motivo da importância do livro em sua vida: “Foi o primeiro que comprei com meu próprio dinheiro (R$ 2). Fiquei tão feliz!”. Leitor inveterado encontrou o dístico para o próprio ex-libris: “Não emprestar, nem devolver”. Segundo ele, esses devem ser os princípios básicos de uma boa biblioteca. |
O ‘nojento’ |
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Duas jovens passam na porta da livraria e uma delas exclama: - Isso aqui é um sebo!!! - Ai, que nojo, diz a outra |
Vale o que está escrito |
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Chega à livraria mãe com lista de livros pedidos pela conceituada escola. O livreiro consulta o papel. “Alexandre Dumas nunca escreveu Dom Quixote, que é de Miguel de Cervantes”. E acrescentou: “Esse livro assinado por Dumas a senhora nunca vai encontrar”. A mãe fuzila o ignorante livreiro, quase esfrega na cara dele o folheto da escola, que conhece o que pede. Sai ela convencida de que livreiro não tem mesmo cultura. E o espanhol Miguel de Cervantes Saavedra deixa de ser autor do primeiro romance da literatura mundial e sua obra-prima é “assinada”, segundo aquele colégio, pelo folhetinesco francês Dumas, autor de Três Mosqueteiros e O Máscara de Ferro, entre outras obras. |
Estiva cultural |
| Sobe e desce escadas, arrumando livros em prateleiras; carrega amarrados de livros, livros em sacolas, em caixas de papelão. O trabalho pode ser mesmo em feriados e fins de semana para deixar a livraria arrumada para receber os fregueses. Tanto exercício já fez um livreiro, cansado, suado e com as mãos cheias de poeira, parodiar um ministro da Educação: “Agora estou estivador cultural”. |